A sua lista de compras está vazia.
Na officina de Antonio Balle, Valensa, 1746. In-8º de dois tomos com (12)-322-(5) e (4)-300-(2) págs. respectivamente. Encadernação séc. XX inteira de carneira cor de mel, com dourados dispostos em casas abertas na lombada com 5 nervos, e rótulo de pele preta com dizeres também gravados a ouro. Aparo e rúbrica de posse coeva no frontispício, este com canto superior direito restaurado. Miolo em excelente estado de conservação, mantendo a sonoridade original do papel. BELÍSSIMO EXEMPLAR
junto com:
- PIEDADE, P. Fr. Arsenio da - REFLEXOENS APOLOGETICAS A OBRA INTITULADA VERDADEIRO METHODO DE ESTUDAR, DIRIGIDA A PERSUADIR HUM NOVO methodo em Portugal se ensinarem, e aprenderem as sciencias, e refutar o que neste Reino se pratica, expendidas para desaggravo dos Portugueses em huma Carta, quem em respsota de outra se escreveo da Cidade de Lisboa para a de Coimbra ... Na Officina de Francisco Luiz Ameno, Lisboa, 1748. In-8º de 66 págs.
junto com:
- RESPOSTA AS REFLEXOENS que o R. P. M. Fr. Arsenio da Piedade Capucho fez as Livro intitulado: VERDADEIRO METODO DE ESTUDAR. Escrita por outro Religioso da dita Provincia para dezagravo da mesma Religiam, e da Nasam. Na Officina de Antonio Balle, Valensa, 1748. In-8º de 146 págs.
Última folha erradamente encadernada no final, constituindo Advertencia do Impressor a quem ler, isto é, o fólio A1* do presente título.
PRIMEIRA EDIÇÃO (variante B, segundo Maria Teresa Payan Martins, em LIVROS CLANDESTINOS E CONTRAFACÇÕES EM PORTUGAL NO SÈCULO XVIII, 2012, p. 356 - só se conhecem dois exemplares da variante A, depositadas em bibliotecas públicas estrangeiras) APREENDIDA PELA INQUISIÇÃO em 1746, do famoso e violento tratado contra a pedagogia dos Jesuitas. Raríssimo, justamente apreciada e bastante valiosa para a Cultura Portuguesa.
O VERDADEIRO MÉTODO DE ESTUDAR foi publicada anónima (sob o pseudónimo de um “Barbadinho da Congregação de Itália”) e o seu aparecimento no mundo das letras deu origem a uma violenta e prolongada polémica literária em que esgrimiram, pró e contra a reforma dos estudps, algumas das penas mais consagradas da época. A obra propõe uma profunda reforma do sistema educativo, defendendo a substituição da lógica aristotélica e do formalismo retórico por métodos fundados na razão, na observação, na experiência e no estudo directo das ciências naturais e das línguas modernas. Verney reclama um ensino útil, prático e moderno, alinhado com os modelos europeus mais avançados, criticando a estagnação intelectual portuguesa e apelando a uma renovação que abrangesse não apenas a pedagogia, mas toda a cultura nacional. Pela clareza argumentativa, pela audácia das suas propostas e pelo impacto que exerceu no debate público, “O Verdadeiro Metodo de Estudar” é hoje considerado um dos textos fundadores do pensamento reformista em Portugal e um marco fundamental na preparação da grande Reforma Pombalina da Universidade.
Ávila Perez, 7944 (refere apenas a edição de 1747)
BNP, 869.0-6
Conde de Ameal, 2474
Inocêncio V, 222 e seguintes
Martins (2012), 356 e seguintes
Monteverde 5527 (refere unicamente a edição seguinte de 1747)
“O Verdadeiro Metodo de Estudar” (1746), publicado sob o pseudónimo de um “Barbadinho da Congregação de Itália”, constitui uma das mais decisivas obras pedagógicas e programáticas do iluminismo português, assumindo-se como um violento libelo contra o ensino escolástico vigente nas instituições do reino, em especial na Universidade de Coimbra. Foi publicada clandestinamente em Nápoles por Gennaro e Vincenzo Muzio com um frontispício que agradaria às autoridades locais. Parte desta edição foi enviada para Lisboa, mas foi logo apreendida pela Inquisição ainda estava no barco (Teresa Payan Martins, 2012). Provavelmente ainda em Nápoles, Verney aproveitou o miolo e, clandestinamente, mandou imprimir esta que ora se apresenta a martelo, sob o nome fictício do impressor valenciano Antonio Balle, à época já inactivo. Esta edição chegou a Lisboa e esgotou logo, dado o conhecimento geral de ter sido apreendida a primeira remessa (id. ibid.).
Luís António Verney (1713-1792), que residia em Roma desde 1736, "com receio dos jesuítas romanos, dirigiu-se a Nápoles, em cujo Reino os inacianos sofriam perseguição da autoridade régia e eclesiástica" (2), para providenciar a publicação do Verdadeiro Método de Estudar, atribuindo a sua autoria a um “Padre Barbadinho da Congregação de Itália”. Cumpridas as formalidades legais e obtidas as licenças necessárias (régia e eclesiástica), a obra foi impressa em dois volumes por Gennaro e Vincenzo Muzio.
Quando a obra chegou a Portugal, em finais de 1746, foi apreendida pela Inquisição “[...] sendo público e notório nesta Corte que o Santo Ofício mandara recolher a primeira impressão que veio de fora do Reino e denegado a licença para eles correrem, pelos justos motivos que ponderam os Qualificadores nas suas censuras.” [in A.N.T.T., Inquisição de Lisboa, processo nº 523I].
Escrita sob os princípios do Iluminismo, o Verdadeiro Método de Estudar demonstra um progressismo notável que provocou fortes reações e acesa polémica devido às orientações pedagógicas defendidas. Em linhas gerais Verney advogava que o ensino devia basear-se nas realidades concretas e na experiência, que a instrução elementar devia ser ministrada a ambos os sexos e a todas as classes e que o Estado devia fomentar e custear as despesas da educação.
A abordagem a cada uma das áreas constantes das Cartas engloba uma primeira parte de crítica ao estado das coisas na altura, desmontando, de forma racional, todos os aspectos que deviam ser mudados e alterados e uma segunda parte em que apresenta soluções e propostas concretas de alternativa.
Filho de pai francês e de mãe portuguesa, Verney estudou no Colégio de Santo Antão e na reformadora Congregação do Oratório até se formar em Teologia em Évora, de onde parte para Roma, alcançando o doutoramento em Teologia e Jurisprudência. O nosso mais conhecido e activo estrangeirado colheu fora de Portugal os pensamentos de renovação que iluminavam a Europa enquanto Portugal vivia as trevas obscurantistas da intolerância da Inquisição.
A pedido do rei D. João V, Verney inicia a sua colaboração com o processo de reforma pedagógica de Portugal, contributo inestimável para uma aproximação profícua ao progresso cultural que animava os espíritos dos europeus mais progressistas. Entre os escolásticos portugueses do século XVIII, Verney destaca-se pelas consequências da sua acção. Após a divulgação do seu programa de renovação, O Verdadeiro Método de Estudar, assiste-se em Portugal ao fim do “reinado” da escolástica dos jesuítas medievalizantes, expulsos por Pombal, e à sua substituição no ensino pela empreendedora Congregação do Oratório, edificadora da modernidade científica no ensino superior.